Midcult

sexta-feira, setembro 25, 2009

O cerco está se fechando

Filed under: Isso é coisa séria!,Música — Nádia Lapa @ 11:57
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A Featured Artists Coalition (FAC) se reuniu ontem no Hampstead’s Air Studios, em Londres, para discutir – novamente – as sanções para quem compartilha arquivos online.

A FAC sempre foi a favor de uma internet mais livre (pra vocês terem uma ideia, o Ed O’Brien, do Radiohead, é um dos cabeças da organização), mas ontem aparentemente deram um passo atrás. O governo britânico estuda uma lei – apoiada por Lily Allen – que prevê o corte do acesso à internet pra quem comete o crime hediondo de baixar MP3 e afins. A FAC sugeriu uma outra saída.

O’Brien e seus colegas Dave Owntree (Blur), Tim Rice-Oxley (Keane) e George Michael, entre outros, assinaram um acordo a favor do “três avisos e você está fora”.

Funcionaria assim: o criminoso receberia uma carta sobre a ilegalidade dos downloads. Se repetir o erro, recebe uma mais direta. A reincidência é punida com uma alteração na banda larga do bandido, que passaria a ter uma internet tão ruim que só o permitiria acessar a web e e-mails – nada de baixar músicas. No donut for you!

Lily Allen, apesar de não ser membro da FAC, também assinou o documento.

Como ex-moça-do-direito, penso bastante acerca do direito autoral. Entendo que é preciso ganhar dinheiro com a indústria cultural*, mas criminalizar e punir quem baixa arquivos online é de uma ineficácia espantosa.

Nádia Lapa

*Uma pessoa que defende fervorosamente a internet livre me disse uma vez que Mozart (ou algo do gênero) não compôs com o fim de ganhar dinheiro. Isso é de uma ingenuidade tamanha que não me dá nem vontade de discutir. Vivemos num mundo capitalista, dinheiro é bom, eu gosto e os artistas/escritores/atores/diretores também. Eu ganho pra escrever. Você aí ganha pra construir prédios, o José ganha pra empacotar compras no supermercado. Temos que pensar é num jeito de fazer o dinheiro circular. Não, eu não sei como. Se soubesse, venderia minha ideia.

quarta-feira, julho 15, 2009

Se nada mais der certo

Não, não é o trecho de uma carta suicida. O título do post é nome de um filme brasileiro estrelado por Cauã Reymond (delícia), com estreia prevista para dia 14 de agosto.

O longa narra a história de um jornalista desempregado, que mora com uma dependente química e com o filho dela. Sem dinheiro para arcar com as depesas básicas de rotina, o repórter entra para o mundo do crime – auxiliado por um taxista desequilibrado, interpretado pelo ótimo ator João Miguel.

Presente em eventos importantes como o 11º Festival de Cinema Brasileiro de Paris e bem avaliado pela crítica especializada, a película promete ser um dos sucessos nacionais de 2009. Como eu não sou especialista e não assisti ao filme ainda, meu intuito é expor uma questão curiosa a respeito do personagem principal – o jornalista Leo.

Segundo Cauã Reymond, o repórter é um “perdedor” – bebe e fuma feito um louco. Ele afirma, ainda, em entrevista publicada no blog de Patrícia Kogut, que durante as gravações chegava a fumar um maço de cigarros por dia, além de ter “aprendido” a beber vodca e uísque.

Minha ideia não é criticar o uso de bebidas e o vício de fumar, até porque eu estaria sendo hipócrita se o fizesse. O que me chamou a atenção foi a questão de como se constrói um estereótipo. No caso, o jornalista que fuma e bebe – poderia ser qualquer outro: o músico boêmio, um escritor, enfim…

O estereótipo é uma versão mais simples do senso comum. Este último podemos caracterizar como um conjunto de valores e ideias compartilhados por toda a sociedade. Por consequência, uma figura estereotipada é aquela na qual o senso comum captura algumas de suas características e as exagera. Com isso, o estereótipo ganha o status de real e de verdade absoluta porque todo mundo o aceita como tal.

Quando toda esta gama de fatores encontra a intolerância, o preconceito surge. É curioso pensar nestes aspectos, não? Como a própria sociedade produz fatos, engendra personas e os destrói – com a mesma intensidade -, quando às vezes imaginamos que estas “armações” sejam feitas por um único ser ardiloso e sua mente destruidora.

Bom, enquanto não descobrimos uma fórmula secreta para resolver os problemas do mundo, vejamos o trailer do filme:

Cintia Santiago

sábado, julho 11, 2009

Cidade Ilhada

Cidade Ilhada é o nome do último livro do amazonense Milton Hatoum. Só um filho desta terra pode ter a real dimensão do que Manaus representa – uma cidade praticamente sem ligação com o mundo externo, perdida no meio da selva amazônica.

Para grande parte do mundo, a Amazônia é o “pulmão do mundo”, o “inferno verde”. Um lugar exótico. Macacos, muito verde, cobras e onça pintada vêm à cabeça de quem pensa nisso tudo aqui. Esquecem dos dois milhões de habitantes do estado. Ignoram que aquela televisão usada o dia inteiro foi produzida aqui. Desconhecem a cultura da região. Confundem pororoca com encontro das águas. Perguntam se é verdade que a gente marca encontros “antes ou depois da chuva” *. Podem jurar de pés juntos que saímos de casa de cocar, flechamos nossos inimigos e moramos em ocas.

Com tamanho desconhecimento, é fácil defender que a floresta fique intocada. As pessoas escovam os dentes de torneira aberta, dirigem pra ir à padaria da esquina, usam o elevador pra subir um lance de escada, deixam todas as lâmpadas acesas “porque não gostam de escuridão”, mas defendem a preservação da natureza. Vai falar que alguém desmatou 5 hectares de terra na Amazônia, pra você ver! Elas viram ecologistas de carteirinha.

Queria ver é essas pessoas tentarem comprar um lençol na Americanas.com e o prazo de entrega previsto ser de 14 dias. Um eletrodoméstico no Shoptime? Mais de um mês. Cadeira de rodas? Frete grátis via terrestre, mas o prazo é de 20 dias úteis. Se você tem pressa, pode pedir via aéra, mas vai pagar 715 reais de frete e gastar o valor de DUAS cadeiras. **

O quilo do tomate de péssima qualidade custa quase cinco reais em Manaus. Um vasinho de kalanchoe, que em São Paulo se encontra por cerca de 3 reais, aqui sai por 18. Fazer batata rústica, um dos meus acompanhamentos favoritos, é impossível – o calor é tanto que o alecrim não pega. Resta comprar no supermercado, caríssimo e ressecado.

Estas coisas prosaicas, do cotidiano de qualquer morador de classe média no sul e sudeste do país, são muito complicadas em Manaus. O motivo é simples. Estamos ilhados, sem contato rodoviário com o restante do país. A única saída por estrada daqui é para Boa Vista, em Roraima (e não Rorãima, como costumam falar na civilização). Sobra o transporte aéreo, caríssimo (uma passagem para cá, só de vinda, pode custar quase 2 mil reais), ou o fluvial, demoradíssimo e sujeito às intempéries da natureza.

Parte deste problema poderia ser resolvido com a reforma da BR-319, estrada ligando Manaus à Porto Velho, capital de Rondônia. Isso mesmo: reforma. A estrada já existe, mas com as chuvas amazônicas e a falta de conservação virou um lamaçal. Porém, a discussão acerca desta obra, prevista no PAC, está rolando há meses.

O Ministro do Meio-Ambiente, Carlos Minc, bateu o martelo. Fará de tudo para impedir a reforma; já o Ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, que foi prefeito de Manaus, briga no sentido contrário. Por mais que tenha restrições ao ex-prefeito, não posso deixar de apoia-lo nesta luta.

Saí de Manaus há 13 anos, não pretendo voltar e só retorno à cidade, como agora, por questões familiares. Mas não estou de olhos fechados. Vejo os problemas de logística – como os descritos acima – que podem parecer prosaicos à primeira vista. Pense, porém, no que é para um comerciante trazer insumos para a região. Imagine agora a Zona Franca de Manaus, que exporta produtos para diversas partes do mundo. Tem algo difícil de visualizar, mas faça um esforço: o ribeirinho (aquele caboclo que mora na beira do rio) demora semanas para chegar, de barco, a uma cidade onde pode ter atendimento médico.

Por tudo isso, quero ver essa minha cidade natal prosperar. De nada adianta preservar a floresta e deixar o morador amazônico à míngua.  Digo “sim” à BR-319. Digo “não” aos ecologistas de escritório.

Para análise mais apurada de quem sabe do que fala, leia o blog de Denis Minev.

Para ver a viagem do Minc e saber a quantas anda essa discussão, leia aqui.

BR 319: a chance de sermos “ilhados” só nas palavras de Hatoum.

Nádia Lapa

*Dizem que esta coisa de “chuva todos os dias na mesma hora” acontece em Belém, e não em Manaus. Desconheço.

**Todas as situações descritas aconteceram comigo.

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