Midcult

sábado, julho 11, 2009

Cidade Ilhada

Cidade Ilhada é o nome do último livro do amazonense Milton Hatoum. Só um filho desta terra pode ter a real dimensão do que Manaus representa – uma cidade praticamente sem ligação com o mundo externo, perdida no meio da selva amazônica.

Para grande parte do mundo, a Amazônia é o “pulmão do mundo”, o “inferno verde”. Um lugar exótico. Macacos, muito verde, cobras e onça pintada vêm à cabeça de quem pensa nisso tudo aqui. Esquecem dos dois milhões de habitantes do estado. Ignoram que aquela televisão usada o dia inteiro foi produzida aqui. Desconhecem a cultura da região. Confundem pororoca com encontro das águas. Perguntam se é verdade que a gente marca encontros “antes ou depois da chuva” *. Podem jurar de pés juntos que saímos de casa de cocar, flechamos nossos inimigos e moramos em ocas.

Com tamanho desconhecimento, é fácil defender que a floresta fique intocada. As pessoas escovam os dentes de torneira aberta, dirigem pra ir à padaria da esquina, usam o elevador pra subir um lance de escada, deixam todas as lâmpadas acesas “porque não gostam de escuridão”, mas defendem a preservação da natureza. Vai falar que alguém desmatou 5 hectares de terra na Amazônia, pra você ver! Elas viram ecologistas de carteirinha.

Queria ver é essas pessoas tentarem comprar um lençol na Americanas.com e o prazo de entrega previsto ser de 14 dias. Um eletrodoméstico no Shoptime? Mais de um mês. Cadeira de rodas? Frete grátis via terrestre, mas o prazo é de 20 dias úteis. Se você tem pressa, pode pedir via aéra, mas vai pagar 715 reais de frete e gastar o valor de DUAS cadeiras. **

O quilo do tomate de péssima qualidade custa quase cinco reais em Manaus. Um vasinho de kalanchoe, que em São Paulo se encontra por cerca de 3 reais, aqui sai por 18. Fazer batata rústica, um dos meus acompanhamentos favoritos, é impossível – o calor é tanto que o alecrim não pega. Resta comprar no supermercado, caríssimo e ressecado.

Estas coisas prosaicas, do cotidiano de qualquer morador de classe média no sul e sudeste do país, são muito complicadas em Manaus. O motivo é simples. Estamos ilhados, sem contato rodoviário com o restante do país. A única saída por estrada daqui é para Boa Vista, em Roraima (e não Rorãima, como costumam falar na civilização). Sobra o transporte aéreo, caríssimo (uma passagem para cá, só de vinda, pode custar quase 2 mil reais), ou o fluvial, demoradíssimo e sujeito às intempéries da natureza.

Parte deste problema poderia ser resolvido com a reforma da BR-319, estrada ligando Manaus à Porto Velho, capital de Rondônia. Isso mesmo: reforma. A estrada já existe, mas com as chuvas amazônicas e a falta de conservação virou um lamaçal. Porém, a discussão acerca desta obra, prevista no PAC, está rolando há meses.

O Ministro do Meio-Ambiente, Carlos Minc, bateu o martelo. Fará de tudo para impedir a reforma; já o Ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, que foi prefeito de Manaus, briga no sentido contrário. Por mais que tenha restrições ao ex-prefeito, não posso deixar de apoia-lo nesta luta.

Saí de Manaus há 13 anos, não pretendo voltar e só retorno à cidade, como agora, por questões familiares. Mas não estou de olhos fechados. Vejo os problemas de logística – como os descritos acima – que podem parecer prosaicos à primeira vista. Pense, porém, no que é para um comerciante trazer insumos para a região. Imagine agora a Zona Franca de Manaus, que exporta produtos para diversas partes do mundo. Tem algo difícil de visualizar, mas faça um esforço: o ribeirinho (aquele caboclo que mora na beira do rio) demora semanas para chegar, de barco, a uma cidade onde pode ter atendimento médico.

Por tudo isso, quero ver essa minha cidade natal prosperar. De nada adianta preservar a floresta e deixar o morador amazônico à míngua.  Digo “sim” à BR-319. Digo “não” aos ecologistas de escritório.

Para análise mais apurada de quem sabe do que fala, leia o blog de Denis Minev.

Para ver a viagem do Minc e saber a quantas anda essa discussão, leia aqui.

BR 319: a chance de sermos “ilhados” só nas palavras de Hatoum.

Nádia Lapa

*Dizem que esta coisa de “chuva todos os dias na mesma hora” acontece em Belém, e não em Manaus. Desconheço.

**Todas as situações descritas aconteceram comigo.

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1 Comentário »

  1. Durante um jantar com um amigo, ontem, discutimos exatamente como os “civilizados” daqui do Sudeste e, também, do Sul lidam com os acontecimentos do norte e nordeste. Tem gente esclarecida aqui em São Paulo que simplesmente não sabe das chuvas que desabrigaram milhares de famílias no Maranhão e muito menos que Manaus está debaixo d’água.
    É realmente muito fácil dizer-se a favor da ecologia e da preservação da Amazônia, quando se está entre quatro paredes e muito bem protegido da chuva e da cheia dos rios.

    Beijo

    Comentário por Cintia Santiago — sábado, julho 11, 2009 @ 17:25 | Responder


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