Midcult

segunda-feira, novembro 2, 2009

Elegante, com certeza

Filed under: Literatura,Livros — Nádia Lapa @ 17:22
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Minha amiga @lu_karam insistia para que eu lesse A elegância do ouriço, da francesa Muriel Barbery. Ela só esquecia (dia sim, outro também) de me emprestar o tal livro. Até que ela lembrou. Comecei a ler meio desconfiada. Não curti os primeiros capítulos. Achei, honestamente, que seria uma daquelas obras que largamos no meio.

Insisti.

E foi só pela insistência que cheguei a isso:

Mas agora, e pela primeira vez, senti dor, tanta dor. Um soco no estômago, a respiração cortada, o coração desmilinguido, o estômago completamente esmagado. Uma dor física insuportável. Perguntei a mim mesma se um dia me recuperaria dessa dor. Sofri de dar vontade de berrar. Mas não berrei. O que experimento, agora que a dor continua mas já não me impede de andar ou falar, é uma sensação de impotência e absurdos totais. Então, é assim? De repente, todos os possíveis se apagam? Uma vida cheia de projetos, de conversas apenas começadas, de desejos nem sequer realizados, apaga-se num segundo e não tem mais nada, não há mais nada que fazer, não se pode voltar atrás? Pela primeira vez na vida senti o significado da palavra nunca. Bem, é terrível. A gente pronuncia essa palavra cem vezes por dia, mas não sabe o que diz antes de ter sido confrontado com um verdadeiro “nunca mais”. Afinal, sempre temos a ilusão de que controlamos o que acontece; nada nos parece definitivo.

Cheguei à parte acima justamente hoje, 2 de novembro, dia de Finados. E eu, infelizmente, já senti tudo isso aí em cima. A autora foi brilhante.

O livro, com 350 páginas e publicado pela Companhia das Letras, conta a história de Paloma e Renée. A primeira é moradora de um dos apartamentos do sofisticado prédio de número 7 da rue de Grenelle; a segunda é a zeladora do edifício. Ambas são narradoras absolutamente apaixonantes pra quem é freak como eu e defende a língua com um certo purismo. Além da óbvia diferença de classes sociais, as narradoras têm uma diferença de idade de 40 anos. Mesmo assim, os caminhos delas se cruzam. E uma muda a vida da outra. Não contarei mais que isso. Leia.

É um romance filosófico (não sou muito afeita a filosofia), mas o modo como a autora descreve coisas, sentidos e pessoas te faz viajar, imaginar cada personagem. É impossível não se deixar levar. Recomendo. Super.

Nádia Lapa

quinta-feira, agosto 13, 2009

O humor de Caio F.

Podem dizer que somos monotemáticas! E daí?

Inspirada no post Eu te amo, Caio, escrito pela Nádia hoje, preciso compartilhar algo fantástico de nosso querido Caio Fernando Abreu. No ápice da depressão, ele conseguia reproduzir a própria angústia com um humor que me fez gargalhar vergonhosamente. É o trecho de uma carta à amiga Jacqueline Cantore, publicado na biografia feita por Jeanne Callegari:

“Abobrinha 2 (somente para iniciados):

Abobrinha 2a. S’as o que o Caio Fernando Abreu disse quando viu o Jaburu do outro lado da calçada?
– Como é que estou do outro lado, se estou aqui?

Abobrinha 2b. S’as o que o Jaburu, do outro lado da calçada, fez quando viu o Caio Fernando Abreu? Gritou:
– Jaburú-ú!”

Quem ousa supor que ele não era sensacional?

Cintia Santiago

Eu te amo, Caio

Filed under: Literatura,Livros — Nádia Lapa @ 11:06
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Caio Fernando Abreu dizia que queria muito ser amado por algo que ele escreveu. Nem precisava querer isso – eu me apaixonei perdidamente desde a primeira linha.

Foi lançado em junho um novo livro sobre a vida de Caio F. Já quero comprar, claro. Notem na parte da Maria Adelaide Amaral o gato ATERRORIZANTE no canto inferior esquerdo do vídeo.

Nádia Lapa

quarta-feira, julho 22, 2009

Under pressure

ou Deus é naja. E nós também.

Curioso. Quando tenho problemas sérios e graves é quando escrevo melhor (comentários do tipo  “mas vc escreve bem?” devem ser endereçados para vapraputaquepariu@gmail.com). Servia como uma luva quando eu tinha um blog diarinho, lá pelos idos de 2001, 2002. Hoje, não tenho mais interesse em me expor. Devo ter ficado medrosa no meio do caminho, receosa das manifestações do tipo “patricinha lobotomizada” que recebia no passado – e que me faziam gargalhar alto. Talvez eu, no alto dos meus 21 anos, fosse mais livre que hoje.

Pensando bem, não deveria ser assim. Deveria continuar com o “foda-se” ligado no turbo.

Já que o tal botão anda meio quebrado e a outra dona deste cafofo, dona Cintia Santiago, também não está nos seus melhores dias, nada melhor que buscar conforto em dois grandes mestres. Curiosamente, os dois eram gays e morreram em consequência da Aids.

O primeiro deles é Freddie Mercury, que não nos deixou só We are the champions, ao contrário do que alguns pensam por aí (na verdade, essas pessoas devem achar que tal música surgiu do imaginário popular). O Queen, banda capitaneada por Mercury (aliás, há algo mais britânico e mais gay que uma banda chamada Queen?), se juntou a David Bowie e arrebatou o mundo com Under Pressure, lançada em 1981 e considerada pelo VH1 uma das melhores músicas dos anos 1980.

Neste ano eu tive a grata surpresa de ver uns rapazes tocando a mesma música aqui em São Paulo (o vídeo não é do show daqui. um vídeo feito por alguém da plateia da apresentação em Sampa – arrepiante – pode ser visto aqui):

Notem que Tom Chaplin, vocalista do Keane, nasceu apenas 2 anos antes do lançamento de Under Pressure. A mãe dele não devia usar a  música como canção de ninar, né? Então, fica óbvia a influência do Queen em bandinhas outrora consideradas indies.

A letra?

Under Pressure – Queen e David Bowie

Mm ba ba de
Um bum ba de
Um bu bu bum da de
Pressure pushing down on me
Pressing down on you no man ask for
Under pressure – that burns a building down
Splits a family in two
Puts people on streets
Um ba ba be
Um ba ba be
De day da
Ee day da – that’s o.k.
It’s the terror of knowing
What this world is about
Watching some good friends
Screaming ‘Let me out’
Pray tomorrow – gets me higher
Pressure on people – people on streets
Day day de mm hm
Da da da ba ba
O.k.
Chippin’ around – kick my brains around the floor
These are the days it never rains but it pours
Ee do ba be
Ee da ba ba ba
Um bo bo
Be lap
People on streets – ee da de da de
People on streets – ee da de da de da de da
It’s the terror of knowing
What this world is about
Watching some good friends
Screaming ‘Let me out’
Pray tomorrow – gets me higher high high
Pressure on people – people on streets
Turned away from it all like a blind man
Sat on a fence but it don’t work
Keep coming up with love
but it’s so slashed and torn
Why – why – why ?
Love love love love love
Insanity laughs under pressure we’re cracking
Can’t we give ourselves one more chance
Why can’t we give love that one more chance
Why can’t we give love give love give love give love
give love give love give love give love give love
‘Cause love’s such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the edge of the night
And love dares you to change our way of
Caring about ourselves

This is our last dance
This is our last dance
This is ourselves
Under pressure

Under pressure
Pressure

(grifo meu)

O segundo rapaz a nos salvar em momentos como este é ele, sempre ele, Caio Fernando Abreu. Já escrevi tanto sobre o escritor gaúcho aqui neste blog que pareço monotemática. Hum. Pensando bem, sou mesmo.

De todas as obras-primas que ele nos deixou, Deus é naja deve ser a mais conhecida. Nunca leu? Leia. Já leu um milhão de vezes, como eu? Cá vai mais uma:

Deus é naja

Caio Fernando Abreu

Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina.

Tenho um amigo, cujo nome, por muitas razões, não posso dizer, conhecido como o mais dark. Dark no visual, dark nas emoções, dark nas palavras: darkésimo. Não nos conhecemos há muito tempo, mas imagino que, quando ainda não havia darks, ele já era dark. Do alto de sua darkice futurista, devia olhar com soberano desprezo para aquela extensa legião de paz e amor, trocando flores, vestida de branco e cheia de esperança.

Pode parecer ilógico, mas o mais dark dos meus amigos é também uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Rio sem parar do humor dele – humor dark, claro. Outro dia esperávamos um elevador, exaustos no fim da tarde, quando de repente ele revirou os olhos, encostou a cabeça na parede, suspirou bem fundo e soltou essa: -“Ai, meu Deus, minha única esperança é que uma jamanta passe por cima de mim…” –  Descemos o elevador rindo feito hienas.

Devíamos ter ido embora, mas foi num daqueles dias gelados, propícios aos conhaques e às abobrinhas. Tomamos um conhaque no bar. E imaginamos uma história assim: você anda só, cheio de tristeza, desamado, duro, sem fé nem futuro. Aí você liga para o Jamanta Express e pede: -“Por favor, preciso de uma jamanta às 20h15, na esquina da rua tal com tal. O cheque estará no bolso esquerdo da calça”. Às 20h14, na tal esquina (uma ótima esquina é a Franca com Haddock Lobo, que tem aquela descidona) , você olha para esquina de cima. E lá está- maravilha!- parada uma enorme jamanta reluzente, soltando fogo pelas ventas que nem um dragão de história infantil.

O motorista espia pela janela, olha para você e levanta o polegar. Você levanta o polegar: tudo bem. E começa a atravessar a rua. A jamanta arranca a mil, pneus guinchando no asfalto. Pronto: acabou. Um fio de sangue escorrendo pelo queixo, a vítima geme suas últimas palavras: -“Morro feliz. Era tudo que eu queria…”

Dia seguinte, meu amigo dark contou: – “Tive um sonho lindo. Imagina só, uma jamanta toda dourada…” Rimos até ficar com dor na barriga. E eu lembrei dum poema antigo de Drummond. Aquele Consolo na Praia, sabe qual? “Vamos não chores / A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu” – ele começa, antes de enumerar as perdas irreparáveis: perdeste o amigo, perdeste o amor, não tens nada além da mágoa e solidão. E quando o desejo da jamanta ameaça invadir o poema – Drummond, o Carlos, pergunta: “Mas, e o humour?” Porque esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feito idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada. Dark, qual o problema?


Deus é naja – descobrimos outro dia.

O mais dark dos meus amigos tem esse poder, esse condão. E isso que ele anda numa fase problemática. Problemas darks, evidentemente. Naja ou não, Deus (ou Diabo?) guarde sua capacidade de rir descontroladamente de tudo. Eu, às vezes, só às vezes, também consigo. Ultimamente, quase não. Porque também me acontece – como pode estar acontecendo a você que quem sabe me lê agora – de achar que tudo isso talvez não tenha a menor graça. Pode ser: Deus é naja, nunca esqueça, baby.

Segure seu humor. Seguro o meu, mesmo dark: vou dormir profundamente e sonhar com uma jamanta. A mil por hora.

(grifo meu)

O conto foi publicado em Pequenas Epifanias, livro esgotadíssimo. Pena.

Filosofia de botequim ou não, me junto aos dois gênios – um da música, outro da literatura. A vida, por si só, já é ruim demais normalmente. Às vezes ela fica pior, como agora. Só há duas soluções: ligar pro Jamanta Express (mas, no meu caso, o cheque no bolso da calça ia ser totalmente sem fundos) ou rir descontroladamente de tudo.Mesmo que a gente esteja Under Pressure. Eu escolho – sempre – a segunda opção.

Nádia Lapa, que tá indo ali consertar o botãozinho

quinta-feira, julho 9, 2009

Ok, chega de FLIP

Antes que o assunto vire “retrospectiva 2009” e ninguém mais lembre, vou logo escrever sobre as impressões que tive das principais mesas da FLIP que presenciei. Já aviso logo que o post vai ser meio longo. Então, se você está sem saco, pare por aqui.

Li várias coisas sobre as participações de Chico Buarque e Gay Talese. Do primeiro ser o maior gênio da nossa literatura até questionamentos sobre o motivo que fez o segundo estar “fantasiado” durante a Festa Literária.

Antes, compartilho algo com quem gosta de poesia. Eu já o conhecia de nome, mas concluo agora que Eucanaã Ferraz é um grande poeta. Ele esteve no debate que expunha a atualidade da poesia de Manuel Bandeira. Quer conhecer melhor o professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)? Clique aqui.

Bom, voltando ao tema principal… O sujeito mais charmoso da FLIP tem 77 anos e é um dos mais importantes jornalistas dos Estados Unidos. Claramente, a importância do autor de Fama e Anonimato foi reconhecida durante a mesa em que o título que acabei de citar era o tema. Para quem é jornalista, estuda jornalismo ou enfiou o diploma que tem na parede no cu (perdão, precisava “falar” isso), ver e ouvir Gay Talese de perto é um grande prazer. E pra mim não foi diferente.

Perceber o quanto ele é detalhista, profissional, competente e verborrágico – este último é um “viva” às donas deste recinto virtual – foi a certeza de que estou (estamos) no caminho certo. É o que se pode chamar de uma aula de jornalismo literário, de apuração, de como se transforma um “nada” no centro de uma matéria. O homem de pais italianos, mas que desconhece o idioma daquele país. O marido que foi às últimas consequências de sua vida conjugal em nome de um livro. O jornalista que nunca quis suas reportagens nas manchetes de jornal.

Vejam só Gay Talese me ignorando... na foto que tirei com ele estou tão absurdamente medonha, que não divulgo nem pelo prêmio da Mega-Sena acumulada

Vejam só Gay Talese me ignorando... na foto que tirei com ele estou tão absurdamente medonha, que não divulgo nem pelo prêmio da Mega-Sena acumulada

Ao contrário do que o G1 publicou, Gay Talese não ficou “desconcertado” ao responder sobre a exposição da vida privada da esposa no livro A mulher do próximo. Ele foi prolixo, sim, mas respondeu com a mesma classe e tom de voz que utilizou para debater as demais questões. Disse que humilhou a mulher sem querer e se ressentiu por isso e pelo sofrimento por que passaram os filhos, à época, pequenos.

Certo ou não o que Talese fez? Cada um julgue como quiser. O que não se pode é dizer que ele tenha ficado “sem graça” na hora de responder. Shin Oliva Suzuki, jornalista da matéria do G1, deve ter assistido a outro Gay Talese, não ao que foi à Festa Literária.

"Garoto" coca-cola

"Garoto" coca-cola

Gente, isso tá mais longo que a Bíblia. Aleluia!

A mesa mais aguardada era, mesmo, a de Chico Buarque. Sim, poucos citavam Milton Hatoum como participante. Tradicionalmente, cada autor lê um trecho de sua obra no início do debate. Chico começa com seu Leite Derramado. Leitura pontual e sem expressão vocal. Ok, eufemismo para “sem emoção”. Clap,clap,clap. Lógico, a plateia aplaude.

É a vez de Milton Hatoum. Já no “Boa noite” você se pergunta: “Maluco, que voz é essa?”. Beleza, você começa a ouvir. E vai dando um negócio. Quando se dá conta, já se apaixonou. Foi assim comigo ao ouvir trechos de Órfãos do Eldorado. O áudio que captei não está bom – por motivos óbvios, não é mesmo? Com um gravador de quinta categoria e escondido não poderia ser diferente. Então, faça uma força, coloque um fone de ouvido. Se não der, use a imaginação e ouça aqui.

A verdade é que em alguns momentos os dois estiveram em sintonia. Como na brincadeira da mútua acusação de plágio – um lia a obra do outro – em casa ou em qualquer outro lugar – e dizia :“Esse cara tá me copiando”.

Não precisa dizer que sou péssima fotógrafa

Não precisa dizer que sou péssima fotógrafa

Chico atribui sua inspiração para o livro a tudo o que ele ouviu do pai – Sérgio Buarque de Holanda -, grande historiador brasileiro. “Não tenho cem, mas tenho sessenta e cinco [anos]. Com a idade, a gente vai criando mais intimidade com um passado que antigamente era remotíssimo”, argumentou o compositor.

Hatoum deixou claro que escreve a partir de suas vivências da infância e da juventude, mas fez questão de ressaltar as influências de outros autores – Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Sá Carneiro são nomes presentes na obra do romancista. “A literatura parte de uma tradição. Ela não cai do céu. Os textos são escritos a partir de uma experiência humana, que é uma experiência individual”, fez questão de explicar o escritor.

Resumindo a ópera: Estou terminando de ler o último livro do autor de Roda Viva. Nunca li nada do Hatoum. Mas o fato é que nem precisava ter feito isso para perceber que a literatura do manauense é muito superior à de Chico Buarque em seu Leite Derramado. O maior letrista da Música Popular Brasileira que me desculpe.

Cintia Santiago

segunda-feira, julho 6, 2009

Ai, essas coberturas jornalísticas…

Filed under: jornalismo,Literatura — O escritor @ 15:38
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Neste link do G1 há coisas um tanto equivocadas sobre algumas mesas da FLIP (pelo menos sobre as palestras que presenciei). Principalmente no que diz respeito ao destaque dado somente a Chico Buarque, quando Milton Hatoum roubou a cena em muitos momentos da mesa dos dois, e em relação ao “desconcerto” de Gay Talese, questionado sobre à exposição da vida de sua esposa no livro A mulher do próximo.

Será que essa gente estava, de fato, na FLIP? Assim que eu sair do hospital e tiver acesso às minhas anotações, escreverei sobre os fatos acima.

Cintia Santiago

quinta-feira, julho 2, 2009

E a FLIP, hein?

Filed under: Literatura — O escritor @ 22:57
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(Desculpem-me pelos possíveis erros de formatação e palavras “comidas”. O computador aqui é tosco e o teclado…)

Após o show de abertura com Adriana Calcanhotto – ontem à noite -, começaram hoje as mesas de debate da FLIP. Assisti a uma que discutia a arte dos quadrinhos. Muito interessante saber que os artistas de HQ (histórias em quadrinhos) passam pelas angústias e incertezas do processo de criação de uma obra, assim como muitos escritores. Sempre tive a ideia de que desenhar era algo mais “leve”. Ledo engano…

Bom, o melhor do dia foi a segunda mesa, na qual o tema era a China. Dois escritores – Ma Jian  e Xinran – debateram questões sobre seus livros lançados na Feira: Pequim e Coma e Testemunhas da China.

O surreal foi o sistema de tradução simultânea do evento. Ma Jian (sim, é um homem) só falava mandarin. Foi aí que o show começou. O tradutor responsável por transformar aquela língua no nosso belo português resolveu fazer do microfone um show de Stand Up. Coisas como “Estou ouvindo minha própria voz” – com o aúdio aberto ao público – num momento “1,2,3, testando” e uma tradução ao pé da letra de uma metáfora, que acabou saindo como “Se eu me tornasse um pato e minha mulher uma franga…” fizeram o público gargalhar.

Risadas à parte, o fato é que a FLIP precisa melhorar um pouquinho o sistema de tradução simultânea dos debates. O evento merece e o público agradece.

Amanhã tem Buarque!

Cintia Santiago

segunda-feira, junho 29, 2009

Do meu conterrâneo

Filed under: Literatura,Manaus — Nádia Lapa @ 02:16
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Antes de recolher-me aos meus aposentos (um colchão inflável no hospital), algumas frases do livro que estou lendo: Cinzas do Norte, do meu conterrâneo Milton Hatoum.

(por falar nisso, tenho mil projetos a respeito da obra do escritor amazonense)

“Nada de poupança, Lavo. Dinheiro guardado é prazer adiado.”

“Esses marmanjos não sentem fome, só sede, mana. Uma cachacinha com jaraqui frito, e estamos no céu.” (TECLA SAP: Jaraqui é um peixe daqui da região, bem barato. No me gusta. Minha avó não come de jeito nenhum.)

Para encerrar:

“Estou trabalhando, mana”, disse Tio Ran. “Trabalho com a imaginação dos outros e com a minha.”

Ela estranhou a frase, que algum tempo depois eu entenderia como uma das definições de literatura.

Nádia Lapa, que vai deixar a imaginação ser trabalhada agora (não pensem em besteira, seus pervertidos)

domingo, junho 28, 2009

Para a FLIP aí vou eu!

Gay Talese, um dos maiores nomes do New Journalism, estará na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que começa dia primeiro de julho. O escritor falará numa das mesas do evento sobre o tema “fama e anomimato” – nome de um dos seus livros mais famosos – e divulgará sua mais recente publicação, Vida de Escritor.

O New Journalism – ou jornalismo literário – propõe que se produza literatura contando histórias; fatos reais expostos de uma forma criativa e com alto teor de sensibilidade. Para isso, o jornalista precisa estar atento a tudo – a qualquer detalhe. A menor atitude de um personagem pode enriquecer e tornar a história muito mais bela e interessante.

Em suma, não é pra todo mundo. E Talese faz isso como ninguém. Não, não estou esquecendo-me de Truman Capote, autor de títulos como A Sangue Frio e Bonequinha de Luxo. Este é assunto para um outro post.

Bom, estarei na FLIP ansiosa para ouvir o que Gay Talese tem a dizer.

Ah, e tem a mesa de debates com Chico Buarque, também. Neste ano, a Festa rende homenagens ao escritor brasileiro Manuel Bandeira.

Cintia Santiago

sábado, junho 27, 2009

A prosa poética que vem da África

Na noite do último dia 25, estava eu na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, desejando enlouquecidamente comprar todos os livros à venda. Em meio aos acontecimentos – a morte de Michael Jackson e a famigerada gripe suína –, esqueci que Mia Couto daria uma palestra naquele lugar sobre seu mais novo livro, Antes de Nascer o Mundo.

O evento aconteceu no teatro Eva Herz, localizado na parte superior da livraria. Dei de cara com a imagem do escritor no telão que exibia a apresentação para as pessoas que ficaram de fora. Imediatamente, lembrei do livro que é o motivo deste post – e que não é o citado acima, e sim O Último Voo do Flamingo.

A história é uma das delícias que tive o prazer de ler na vida. Nascido em Moçambique, António Emílio Leite Couto ganhou o apelido de “Mia” porque, durante a infância, vivia com gatos e se achava um deles. Tudo por causa de sua compleição miúda.

O livro relata a vida de uma vila fictícia chamada Tizangara logo após a guerra civil moçambicana. Tudo corria razoavelmente bem no lugar  – os soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) participavam ativamente do processo de paz. Contudo, os “capacetes azuis” – apelido dados aos oficiais por conta do apetrecho característico do uniforme – explodem misteriosamente.

Para tentar esclarecer o enigma, entra em cena o oficial italiano Massimo Risi. À disposição do agente há um intérprete, que passa a ser o narrador dos fatos mais inacreditáveis. As histórias misturam-se num turbilhão de acontecimentos – vivos e mortos, realidade e fantasia… O sobrenatural toma conta do livro.

Mia Couto consegue prender o leitor a partir do momento em que faz soldados explodirem “do nada”. Elabora a prosa poética de nossa língua portuguesa como poucos. No microtabuleiro da obra há quase tudo: um padre e um feiticeiro; a prostituta e a velha-moça, o caráter e a falta dele.

Na realidade, não seria motivo de espanto ler todo este turbilhão de coisas. Gente totalmente estranha num ambiente surreal é algo até corriqueiro hoje em dia. O que chama a atenção neste “balaio de gato” de Mia Couto, entretanto, é o modo como ele constrói os acontecimentos, transformando personagens “malucos” em seres capazes de encantar. O simbolismo, a metáfora e o jeito peculiar da escrita dão ao romance um quê de felicidade e beleza.

Por que o livro se chama “O Último Voo do Flamingo”? Se eu disser, certamente perderá a graça. Somente descobrirá a resposta quem tiver uma alma audaciosa, plena de vontades e com todos os sentidos aguçados. Quer tentar?

Cintia Santiago, que não é fake e estará sempre ao lado de Nádia Lapa. Pro que der e vier.

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