Midcult

sábado, junho 13, 2009

Viver Sem Tempos Mortos

Nota: Este post não é uma crítica, muito menos uma análise. Representa apenas as impressões de uma leiga e adoradora da arte de representar. Não falarei sobre a direção de Felipe Hirsch, muito menos da coordenação artística de Daniela Thomas. O intuito aqui é outro.

Dia doze de junho, vinte e uma horas e doze minutos. As luzes se apagam. Todos direcionam seus olhares para uma mulher que entra pelo lado esquerdo do palco e senta numa cadeira que está no centro. Só. Ela e a cadeira. Tudo é negro, com exceção da luz enquadrada e do figurino.

Sensação de monotonia, tédio? Talvez. Se você sente isso, não continue a ler. Obrigada.

São sessenta minutos de uma única voz. A voz dela. O som de duas mulheres que se misturaram para a simbiose que aflora na figura de uma das personalidades mais importantes do século XX.

Afastando-se da imitação física e aproximando-se da característica emocional de Simone de Beauvoir, Fernanda Montenegro constrói – na verdade, reconstrói – uma criatura plena, firme, cheia de força, de ideias e de sentimentos.

Durante o espetáculo, ela – Fernanda, ou seria Simone? – nos leva a embarcar em um vasto mundo de sonhos e desejos. Um intenso pulsar de vida e de arte. Em cada frase, um soco na boca do estômago; em cada olhar, a certeza de estar diante do ideário de uma mulher que não queria pouco. Que desejava viver sem tempos mortos.

A vida não está pronta para nós. A surpresa faz parte do jogo. O jogo é complicado. As surpresas são muitas. “A vida não é de quem sabe viver.”.

Atenção para Dona Fernanda, por favor. Sempre.

Cintia Santiago

sábado, maio 23, 2009

Os budas de João

Como se não bastasse toda a sorte de acontecimentos malucos que vemos todos os dias, agora vêm os portugueses meterem a colher no angu do João Ubaldo Ribeiro.

Tá parecendo um japonês aí

Tá parecendo um japonês

O livro A Casa dos Budas Ditosos – esta delícia do escritor baiano, nascido na Ilha de Itaparica – foi censurado por uma rede de lojas de Portugal – a Jumbo, do Grupo Auchan; consideraram a obra pornográfica. Vem cá, será que eles sabem da existência de mulheres melancia-morango-laranja-melão e o “diabo aquático”? Se for pra falar da putaria brasileira, vamos fazer a coisa direito.

Mas, acabado o momento “revolta”, voltemos ao deleite.

Lançado em 1999, a obra faz parte da Coleção Plenos Pecados, série da Editora Objetiva, composta por sete livros de sete autores diferentes; cada um tem como tema um pecado capital. Ubaldo Ribeiro foi convidado a escrever um romance sobre a luxúria.

capa

Este livro é um prazer – literalmente, diga-se de passagem -, e a cada página você acha que não é possível existir uma mulher como a que narra a história. Ela tem 68 anos – dona CLB – e conta as mais loucas experiências sexuais que um ser humano pode ter (medo desta afirmação, porque é cada “nuvidade” que se vê todo dia…).

Qualquer outra coisa que eu fale aqui será irrelevante. Qualquer relato, mesmo o mais caliente, não chega aos pés deste clássico, uma das coisas mais sensacionais que eu já li – digam os puritanos o que quiserem.

A obra foi adaptada para o teatro.  E quem foi a protagonista? Lógico, Fernanda Torres. Poucas vezes eu ri tanto como no espetáculo dirigido pelo ótimo Domingos de Oliveira. Eu fui, aqui em São Paulo, na curta temporada de 2003 – no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), mas, quatro anos depois, a peça voltou para a cidade, desta vez, no Teatro Cultura Artística, onde ficou por três meses.

Fernanda Torres

Já que não temos mais como assistir à Fernanda Torres, na pele de uma quase “setentona” devassa, resta-nos rir com a propaganda veiculada quando o espetáculo esteve no Citibank Hall, na Cidade Maravilhosa.

Se quiser comprar o livro, clique aqui.

Bom, se você for pobre como eu, pode baixar aqui, também.

Outra coisa: já sei por que os portugueses vetaram a obra…

“Em suma, os americanos eram uns merdas simpáticos, só eram bonitinhos mas não sabiam trepar, e a maioria, quando queria dizer um palavrão, dizia God e Jesus, imagine um povo que achava palavrão dizer Deus e Jesus, tudo ligado ao puritanismo deles, usar Seu santo nome em vão, essas coisas. (…)
Eles trepavam e diziam oh God, oh God, só me lembra um português, Nuno, um português lindo que foi meu caso uns tempos, José Nuno, lindo. Aliás, fode-se muito bem em Portugal, apesar do que eu suponho ser a opinião generalizada. Mas eu quase nunca gozava com o Zé Nuno, porque, no momento culminante, ele urrava “não t’acanhes, não t’acanhes!”, e meu ponto G acionava um disjuntor no ato, eu entrava em crises de riso e depois roçava na bunda dele, ele adorava, embora fosse machíssimo e todo português, inclusive os veados – paneleiros, para ficar com a usança portuguesa e emprestar alguma cor local à narrativa -, os paneleiros que se juntam nos arredores do Campo Pequeno, onde se fazem ash curridash d’toirosh em L’shboa e vão trabalhar como forcados, que são uma espécie de veados parrudos que vão enfrentar os touros no peito. Em fila, trenzinho, um encostando a bunda no de trás, naturalmente. E depois vão às tascas, aos copos e à veadagem, são veados machíssimos. Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado.”

Será pudor lusitano?

Cintia Santiago, que tem certeza de que João Ubaldo Ribeiro é o pai dela.

quarta-feira, maio 20, 2009

Atenção para Dona Fernanda, por favor

Não gosto muito desta história de fazer “propaganda” de algo antes de ter comprovado seu merecimento. Nem de meter o pau levando em conta pré-julgamentos. Porém, entretanto, contudo, todavia, preciso muito falar que Fernanda Montenegro está de volta aos palcos paulistanos com Viver sem Tempos Mortos.

O projeto faz parte da programação do Ano da França no Brasil. Trata-se de um monólogo em homenagem à escritora francesa Simone de Beauvoir. As correspondências trocadas entre a feminista e o filósofo francês Jean-Paul Sartre são o tema central do espetáculo.

Montenegro

Se você gosta de Beauvoir, ótimo. Se nunca viu Fernanda Montenegro em cena – e, como eu, não pode morrer sem antes fazê-lo -, aproveite e vá até o Sesc Consolação, em São Paulo.

De 23/05 a 28/06, Montenegro estará lá ao seu dispor. Mas corra! Os ingressos já estão no fim.

fernanda2

Este post volta depois do dia 12 de junho com as impressões acerca do espetáculo. Isso se eu não dormir durante a peça. 😛

Serviço
Sesc Anchieta (Consolação)
Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque – São Paulo/SP
Quintas e sextas-feiras, às 21 horas.
Sábados, às 20 horas.
Domingos, às 18 horas.
Tel. 11 3234-3000
Os ingressos podem ser comprados em toda a rede Sesc, que não abre às segundas-feiras.

Quanto?
R$ 30,00 – inteira
R$ 15,00 – usuário matriculado e dependentes. Pessoas acima de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino.
R$ 7,00 – comerciário e dependentes

Cintia Santiago

Blog no WordPress.com.