Midcult

sábado, junho 27, 2009

A prosa poética que vem da África

Na noite do último dia 25, estava eu na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, desejando enlouquecidamente comprar todos os livros à venda. Em meio aos acontecimentos – a morte de Michael Jackson e a famigerada gripe suína –, esqueci que Mia Couto daria uma palestra naquele lugar sobre seu mais novo livro, Antes de Nascer o Mundo.

O evento aconteceu no teatro Eva Herz, localizado na parte superior da livraria. Dei de cara com a imagem do escritor no telão que exibia a apresentação para as pessoas que ficaram de fora. Imediatamente, lembrei do livro que é o motivo deste post – e que não é o citado acima, e sim O Último Voo do Flamingo.

A história é uma das delícias que tive o prazer de ler na vida. Nascido em Moçambique, António Emílio Leite Couto ganhou o apelido de “Mia” porque, durante a infância, vivia com gatos e se achava um deles. Tudo por causa de sua compleição miúda.

O livro relata a vida de uma vila fictícia chamada Tizangara logo após a guerra civil moçambicana. Tudo corria razoavelmente bem no lugar  – os soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) participavam ativamente do processo de paz. Contudo, os “capacetes azuis” – apelido dados aos oficiais por conta do apetrecho característico do uniforme – explodem misteriosamente.

Para tentar esclarecer o enigma, entra em cena o oficial italiano Massimo Risi. À disposição do agente há um intérprete, que passa a ser o narrador dos fatos mais inacreditáveis. As histórias misturam-se num turbilhão de acontecimentos – vivos e mortos, realidade e fantasia… O sobrenatural toma conta do livro.

Mia Couto consegue prender o leitor a partir do momento em que faz soldados explodirem “do nada”. Elabora a prosa poética de nossa língua portuguesa como poucos. No microtabuleiro da obra há quase tudo: um padre e um feiticeiro; a prostituta e a velha-moça, o caráter e a falta dele.

Na realidade, não seria motivo de espanto ler todo este turbilhão de coisas. Gente totalmente estranha num ambiente surreal é algo até corriqueiro hoje em dia. O que chama a atenção neste “balaio de gato” de Mia Couto, entretanto, é o modo como ele constrói os acontecimentos, transformando personagens “malucos” em seres capazes de encantar. O simbolismo, a metáfora e o jeito peculiar da escrita dão ao romance um quê de felicidade e beleza.

Por que o livro se chama “O Último Voo do Flamingo”? Se eu disser, certamente perderá a graça. Somente descobrirá a resposta quem tiver uma alma audaciosa, plena de vontades e com todos os sentidos aguçados. Quer tentar?

Cintia Santiago, que não é fake e estará sempre ao lado de Nádia Lapa. Pro que der e vier.

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2 Comentários »

  1. Brigadaaaaaaaaaaa

    Me empresta o livro do Mia? Nunca li. Aliás, vou ler um pouco de Hatoum agora.

    Comentário por Nádia Lapa — sábado, junho 27, 2009 @ 16:01 | Responder

    • Claro. Ele tá só esperando você voltar de Manaus. 🙂

      Comentário por Cintia Santiago — sábado, junho 27, 2009 @ 16:08 | Responder


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