Midcult

sábado, setembro 19, 2009

Das coisas que não entendo

Filed under: jornalismo — Nádia Lapa @ 14:56
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Em 18 de junho eu já tinha me expressado acerca da queda da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Hoje, três meses depois, só se traz o assunto à tona quando é para criticar algum colega que “manda mal”. A frase predileta dos espíritos de porco é: “É pra isso que exigem diploma?”, como se em qualquer área não houvesse gente medíocre e faculdades caça-níqueis. A diferença é que quando um jornalista escreve uma bobagem num jornal – ou, pior, fala a bobagem ao vivo na TV – a repercussão é muito maior. Advogados perdem prazo todos os dias, médicos esquecem algodão na barriga do paciente, prestadores de serviço maltratam os clientes. Todos os dias.

Mas essa é uma discussão velha no mundo de hoje, onde as pautas mudam tão rapidamente. O curioso é a nova preocupação do MEC: aumentar a carga horária dos cursos de jornalismo E exigir o estágio supervisionado para a entrega do diploma. Segundo O Globo, o presidente da comissão que avalia as novas diretrizes para o curso acredita que o diploma será valorizado após a implementação das mudanças.

Peraí: qualquer um agora pode tirar carteira de jornalista. Mas, se você for louco o suficiente para entrar numa faculdade que durará quatro anos e te custará com certeza mais de 50 mil reais, você terá que estudar 400 horas a mais do que se estuda hoje e ainda fazer estágio supervisionado? Faz algum sentido isso?

Eu fiz estágio supervisionado no Direito. O MEC exige e eu não consegui estagiar em algum lugar que tivesse credenciamento na OAB (aliás, não consegui estágio whatsoever, entrei direto no mercado de trabalho como trainee). Daí eu ia uma vez por semana pro escritório-modelo da faculdade. Aprendi pouco, muito pouco. E explico o motivo: é muito aluno pra pouco trabalho – e pouco professor. E isso porque o atendimento jurídico era gratuito.

Agora me digam qual trabalho as faculdades de jornalismo poderão oferecer aos alunos. Qualquer um gera um custo – alto. Eu edito um jornal-laboratório da faculdade; tenho colegas que produzem um programa que passa na TV aberta. Eu estudo em uma das melhores faculdades de jornalismo do país. Mas mesmo a ECA-USP, caindo aos pedaços, tem condições de oferecer isso aos estudantes? Duvido. Muito.

Temos que buscar a excelência, sim, mas como exigir isso numa profissão que acabou de tomar uma sova no STF, que chegou a comparar a preparação de um jornalista à de um cozinheiro? Pior ainda é a declaração de Fernando Haddad, ministro da Educação:

– Em função da sua importância para a questão democrática, a sociedade e os meios de comunicação precisam ter profissionais altamente qualificados.

Importante? Os ministros do STF entendem que não.

Nádia Lapa

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