Midcult

sábado, maio 23, 2009

Um estranho familiar

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Caio Fernando Abreu foi um escritor e jornalista polêmico. Sua vida foi permeada por sexo, drogas e rock and roll. Era homossexual assumido, coisa que à época ainda chocava. Morreu em 1996, em decorrência da AIDS, e sua última obra foi Estranhos Estrangeiros, um livro que à primeira vista pode parecer um arremedo de textos. Afinal, ele faleceu antes da conclusão do livro. O título foi escolhido por ele, mas os contos que ele pretendia incluir não foram incluídos (não foram encontrados), com exceção do Ao simulacro da imagerie, que ocupa as primeiras páginas do livro. 

Depois encontramos o Bem longe de Marienbad, que já havia sido publicado na França. Daí segue com London, London, do livro Pedras de Calcutá, da década de 1970. Metade de Estranhos Estrangeiros é ocupada por Pela Noite, uma novela originalmente publicada em O triângulo das águas, cuja primeira edição é de 1983. 

Outros detalhes de Estranhos, como a epígrafe, foram incluídos segundo a informação de amigos do escritor. Apesar da ideia inicial, nada ali parece ter sido colocado indistintamente junto. Os textos trazem toda a audácia e sensibilidade do escritor gaúcho. 

Há que se despir de preconceitos antes de começar a leitura. Afinal, o autor fala com naturalidade de situações homoeróticas e do uso de drogas. Se nada disso te incomoda, vá em frente. As citações da cultura pop são constantes no livro – o que me fascina, devo confessar. Uma lagartixa de Pela Noite, por exemplo, leva o nome de Kay Kendall, uma atriz inglesa que foi nora de Charles Chaplin. No mesmo texto, um dos personagens diz “Vamos dar notas, tipo Márcia de Windsor, que Deus a tenha”, enquanto convida o companheiro a avaliar os demais frequentadores da boate onde se encontram (adooooooooro essas pesquisas antropológicas!). Márcia de Windsor foi vedete e posteriormente jurada dos programas do Silvio Santos e Flávio Cavalcanti.

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Caio Fernando Abreu mostra toda a sua cultura geral (totalmente midcult) nos textos: as referências vão de Julio Cortázar a Guilherme Arantes, num pulo, e ainda passando por David Bowie – isso sem esquecer de Vinícius, Gullar, Glauber, Hemingway…

Além da deliciosa lembrança de músicas e poemas presos no imaginário popular, Caio Fernando Abreu fala de sentimentos de forma franca e aberta. Dá aquela estranha sensação de “eu teria dito isso, se soubesse dizer tão bem”. É o que acontece logo na primeira frase de Ao simulacro da imagerie. Primeira linha do livro: “O céu tão azul lá fora, e aquele mal estar aqui dentro.” Um soco na boca do estômago, eu diria, caso já tivesse tomado um. 

Pode ser ficcional, mas o que Caio F. Abreu mostra naquele conto poderia ter acontecido com qualquer um de nós. É o reencontro com o passado, com aquele ex-que-nunca-foi, e o escritor mostra toda a angústia, frustração e superação advindas de uma história mal resolvida. O horror da vida cotidiana, tão familiar, também aparece por ali: “E o suor a a náusea e a aflição de todos os supermercados do mundo nas manhãs de sábado.”

Depois vem Bem longe de Marienbad, uma novela que consegue trazer romantismo e solidão ao mesmo tempo. O personagem fala o tempo todo com ele mesmo, e é simplesmente um prazer acompanhar os pensamentos por vezes absurdos. Afinal de contas, nosso cérebro funciona da mesma maneira. 

Em seguida é a vez de London, London, que Caio Fernando Abreu escreveu durante o exílio. É a história de um típico brasileiro na terra da rainha. Logo no início, um diálogo que traz um risinho ao rosto de quem lê:

– Good morning, Mrs. Dixon! I’m the cleaner!

– What? The killer?

– Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner…

(esse “not yet” me ganhou totalmente)

Ele termina o conto com um parágrafo que me toca profundamente. E eu digo o motivo – extremamente pessoal. Eu já tive essa exata sensação por pelo menos duas vezes na minha vida:

I don’t forget. Meu coração está perdido, mas tenho um London de A a Z na mão direita e na esquerda um Collins dictionary. Babylon City estertora, afogada no lixo ocidental. But I’ve got something else. Yes, I do.

Eu também, Caio, eu também. 

Em Pela Noite encontramos a tal lagartixa, o reencontro de dois homens que se conheceram na cidade natal, desencontros. Passando por uma engraçadíssima descrição de sexo anal:

Tem a dor, a puta dor. Caralho dói pra caralho. Tem uns jeitos, uns cuspes, uns cremes. Mas é nojento pensar que o pau do outro vai sair dali cheio da sua merda. Mesmo nos casos mais dignos, você consegue imaginar Verlaine comendo Rimbaud? 

Caio Fernando Abreu nos trouxe a ideia da jamanta dourada (texto completo aqui), viveu deprê e morreu prematuramente. Por alguma razão obscura, grandes gênios tiveram esse mesmo destino. É, isso mesmo, acabei de colocar Caio Fernando Abreu na categoria de gênio. Não que a minha opinião realmente seja relevante, mas se você me leu até aqui, talvez ela seja.

Para saber mais sobre Caio Fernando Abreu:

Leia Estranhos Estrangeiros. Tipo ONTEM. Não achei pra vender em nenhuma livraria online. No Estante Virtual só tem um exemplar e está custando inacreditáveis 60 reais. Mas algum amigo seu deve ter, na biblioteca da sua faculdade também. 

Veja Por onde andou Caio F., um documentário que foi o Trabalho de Conclusão de Curso de Marina Fonseca Darmaros, Vânia Goy de Aro e Josué Barros. Está disponível na Faculdade Cásper Líbero. 

Na internet há um milhão de reproduções de textos do escritor gaúcho. Se quer ler algum livro, leia Morangos Mofados (35 reais no Submarino), que talvez seja o mais conhecido de Caio Fernando Abreu.

Só não deixe de ler. 

Nádia Lapa

domingo, maio 17, 2009

Um Caim e Abel moderno

Filed under: Livros — Nádia Lapa @ 23:04
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Como boa amazonense que sou, tenho preconceito com coisas “da terra”. Defendo o tambaqui, mas critico a música, o calor. A literatura, é claro, também entra no bolo.

Comecei timidamente a vencer essa barreira. Primeiro, dei pra minha mãe o Cinzas do Norte e o A Cidade Ilhada, do Milton Hatoum. Tinha – e continuo tendo – intenção de roubá-los no futuro. Mas eis que volto pra São Paulo, e a professora de Português mandou escolher entre três livros para leitura neste bimestre (sim, minha faculdade tem bimestres, tal qual uma escola primária). São eles: Dom Casmurro, Dois Irmãos ou Relato de um Certo Oriente. Sou uma mega fã de Machado de Assis, e por isso mesmo Capitu já deu o que tinha que dar (literalmente? nunca saberemos). Assim, sobraram duas obras de Hatoum.

Escolhi, por acaso, Dois Irmãos. Era o que tinha na Fnac (20,50 reais a edição de bolso da Companhia das Letras).

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O livro conta a história da complicada relação entre dois irmãos gêmeos de ascendência libanesa, Omar – o Caçula – e Yaqub. A narrativa começa ainda antes do nascimento do Caim e Abel amazonenses, e a maneira como o autor descreve os lugares e a Manaus antiga me prendeu de cara.

Eu jamais conseguiria fazer uma resenha sobre o livro, pois me identifiquei muito com diversos trechos da obra. O jeito de falar típico do amazonense, as descrições de coisas que nem mais existem por lá – mas que fizeram parte da minha infância -, os nomes das ruas por onde andei, as praças onde corri enlouquecidamente quando criança… 

Confesso não ter gostado do final, mas reconheço no autor um estilo interessante de ser lido, uma capacidade de descrever lugares e pessoas comparável aos grandes mestres da literatura. Você lê e logo imagina o rosto dos personagens, o jeito de falar, a rede vermelha no alpendre, o barulho da chuva, o cheiro de peixe. Poucos conseguem levar sua imaginação tão longe sem te cansar.

Um trecho que vale a transcrição: “o do cupuaçu pesado e maduro, cofre de veludo ocre que protege a polpa prateada, fonte de raro perfume”. Belíssimo modo de falar da minha fruta amazônica favorita. Cá está o tal “cofre”:

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Agora, tenho mais 4 livros do meu conterrâneo para ler.

Nádia Lapa

sexta-feira, maio 1, 2009

Não perca!

Filed under: Compras,Livros — Nádia Lapa @ 01:52
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A Saraiva Online volta e meia faz uma promoção de livros por R$ 9,90. 

Às vezes tem uns títulos meia-boca, mas foi numa dessas promoções que eu comprei o Almanaque dos anos 90 e o dos Seriados. Eles normalmente custam 40 reais. Há descontos bestas, como de apenas 3 reais. Mas sempre dá pra achar coisas legais.

Hoje, por exemplo, eu compraria fácil Plano de Ataque, de Ivan Sant’Anna (amo Caixa Preta, do mesmo autor).

Pra ver os livros em promoção, clique aqui. 

UPDATE

Alex Correa, do Move that jukebox, falou que há a mesma promoção no Submarino. Eu prefiro a Saraiva mil vezes; além disso, só vi livros que já são baratos mesmo. Sem contar que a maioria dos títulos é de auto-ajuda. Sou clichê, mas não tanto. 

Claro que você pode se interessar por esse livro aqui, mas é de cada um, né?

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