Midcult

domingo, maio 31, 2009

Beijomeliga. Mas me liga MESMO.

Eu tenho paixonites irreais. Tipo o Gael Garcia Bernal. Ou o Marco Luque. Isso sem contar com Brad Pitt e outros personagens menos óbvios.

E um deles é Antonio Prata, escritor e cronista do Estadão. Quinzenalmente ele nos delicia com um texto na última página do caderno Metrópole (nos outros domingos, a vez é de uma determinada jornalista que eu não gosto nem de dizer o nome).

Virginiano, o escritor de 31 anos é considerado um dos novos talentos da literatura brasileira. Prata é casado (buá), torce pelo Corinthians (blé)  e mora em Perdizes, bairro que já decidimos (eu e minhas amigas) ser um celeiro de rapazes interessantes. 

Seu livro de estreia foi Douglas e outras histórias, de 2001. Não gostei. Esses sete anos que se passaram só fizeram melhorar – e muito – a narrativa do autor. 

Amo os textos de Antonio Prata. Além do livro mencionado, eu fuçava o blog dele, também. Até que eu estava tranquila no congresso de jornalismo cultural no Itaú e ele fez parte de uma palestra sobre crônicas. 

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Aí pronto. Fodeu. Mesmo com a língua meio presa, os óculos e a barriguinha… Ele estava com blusa listrada, né? Não resisto a homens de camisa listrada. 

Só não saí me rasgando toda porque ali estava também Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Cosac Naify. E ele me deixa petrified. 

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(juro que Cassiano é muito mais lindo que isso)

O texto mais famoso de Antonio Prata é  Bar ruim é lindo, bicho! (mais conhecido como “meio intelectual, meio de esquerda”), mas ele me conquistou, mesmo, foi com o Pensamento Único, que reproduzo abaixo:

Pensamento Único, por Antonio Prata

 

A calabresa está com os dias contados. É a próxima vítima na cruzada puritana que assola o Globo. Quando a última bituca for apagada no fundo do derradeiro copo de chope, pode anotar: eles virão atrás da lingüiça.
A caçada, na verdade, já começou. Ontem à noite, num bar, uma garota em minha mesa resolveu desafiar o espírito do tempo e pedir ao garçom, sob olhares atônitos dos outros comensais, um sanduíche de calabresa. O resto da turma a olhou, incrédulo. Diante de suflês de abobrinha, saladas verdes e outros corolários anódinos do auto-controle, pareciam dizer, cheios de orgulho e inveja: você não sabe que não se pede mais esse tipo de coisa?!
Por enquanto, a repressão é apenas cultural, mas é assim que começa. Em breve os carnívoros começarão a ser hostilizados em restaurantes. Depois, quem sabe, serão obrigados a usar estrelas vermelhas costuradas à roupa. Daí para os cercarem em guetos e você-sabe-bem-como-essa-história-termina é apenas um passo.
A moda agora é das comidas funcionais. Suco de berinjela, salada de alfafa, meia uva com três grãos de gergelim… Tudo pelo bom funcionamento do sistema digestivo, como se fôssemos meras máquinas a serem reguladas. Daqui a pouco o garçom vai perguntar, enquanto toma nosso pedido: “quer que dê uma olhada no óleo e na água?”.
Podem dizer que é para o nosso próprio bem. Que a gordura mata e o agrião salva. Amém. Acredito, no entanto, que a opção preferencial pelas fibras nada tem a ver com a saúde do corpo mas, sim, com uma doença da alma: o sabor está ficando démodé. Há uma espécie de ascetismo religioso nessa austeridade dietética. Um júbilo penitente pelo auto-controle. Segundo o novo moralismo alimentar, os gordos são preguiçosos, os carnívoros são lascivos e quem pede uma calabresa, de noite, na frente dos outros, só pode estar completamente fora de sintonia com a própria época.
A questão é séria e requer uma atitude. Glutões de todo o mundo, discípulos de Baco, cultores do bom, do belo e do supérfluo, uni-vos: o prazer subiu no telhado. Ponham as carnes na grelha, aumentem o som, abram um vinho, reajam! Antes que seja tarde e o mundo se transforme numa barra de cereal. Light.

O jeito de Antonio Prata falar do cotidiano é algo que me atrai. Gosto de quem consegue pegar algo simples e transformar, tornando interessante. É isso que ele faz. 

Ele já escreveu para a Capricho e tem vários livros publicados (hello! ele tem 31 anos!). Vá ler JÁ o blog dele no Estadão. Tenho certeza que você vai gostar.

Nádia Lapa

quinta-feira, maio 28, 2009

Pátria Minha

Esta “mania” que jornalista tem de apurar as coisas acaba nos botando loucos. Não se tem como segurar e, por isso, ao procurar o que queria, deparei-me com o que não quis.

Ao ver estas imagens…

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…só pude lembrar Vinicius, em Pátria Minha

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vinicius de Moraes, in Antologia Poética

Ouça assim:

Ou como quiser:

É sempre melhor ler e ouvir o poetinha. E Pátria Minha.

Cintia Santiago

quarta-feira, maio 27, 2009

Mais Caio Fernando Abreu

Filed under: Literatura — Nádia Lapa @ 13:20
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Minha amiga Renata Matteoni  me mandou um e-mail indicando um Clube de Leitura virtual. Nesta semana, a discussão será sobre meu queridíssimo Caio Fernando Abreu e seu conto Aqueles Dois

Não é um dos meus contos favoritos, mas olhem só que espetacular:

De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Sensacional, não? Para participar, é só vir aqui.  Eu escrevi recentemente sobre Estranhos Estrangeiros, do mesmo autor, bem aqui.  

Divirtam-se!

Nádia Lapa

sábado, maio 23, 2009

Um estranho familiar

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Caio Fernando Abreu foi um escritor e jornalista polêmico. Sua vida foi permeada por sexo, drogas e rock and roll. Era homossexual assumido, coisa que à época ainda chocava. Morreu em 1996, em decorrência da AIDS, e sua última obra foi Estranhos Estrangeiros, um livro que à primeira vista pode parecer um arremedo de textos. Afinal, ele faleceu antes da conclusão do livro. O título foi escolhido por ele, mas os contos que ele pretendia incluir não foram incluídos (não foram encontrados), com exceção do Ao simulacro da imagerie, que ocupa as primeiras páginas do livro. 

Depois encontramos o Bem longe de Marienbad, que já havia sido publicado na França. Daí segue com London, London, do livro Pedras de Calcutá, da década de 1970. Metade de Estranhos Estrangeiros é ocupada por Pela Noite, uma novela originalmente publicada em O triângulo das águas, cuja primeira edição é de 1983. 

Outros detalhes de Estranhos, como a epígrafe, foram incluídos segundo a informação de amigos do escritor. Apesar da ideia inicial, nada ali parece ter sido colocado indistintamente junto. Os textos trazem toda a audácia e sensibilidade do escritor gaúcho. 

Há que se despir de preconceitos antes de começar a leitura. Afinal, o autor fala com naturalidade de situações homoeróticas e do uso de drogas. Se nada disso te incomoda, vá em frente. As citações da cultura pop são constantes no livro – o que me fascina, devo confessar. Uma lagartixa de Pela Noite, por exemplo, leva o nome de Kay Kendall, uma atriz inglesa que foi nora de Charles Chaplin. No mesmo texto, um dos personagens diz “Vamos dar notas, tipo Márcia de Windsor, que Deus a tenha”, enquanto convida o companheiro a avaliar os demais frequentadores da boate onde se encontram (adooooooooro essas pesquisas antropológicas!). Márcia de Windsor foi vedete e posteriormente jurada dos programas do Silvio Santos e Flávio Cavalcanti.

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Caio Fernando Abreu mostra toda a sua cultura geral (totalmente midcult) nos textos: as referências vão de Julio Cortázar a Guilherme Arantes, num pulo, e ainda passando por David Bowie – isso sem esquecer de Vinícius, Gullar, Glauber, Hemingway…

Além da deliciosa lembrança de músicas e poemas presos no imaginário popular, Caio Fernando Abreu fala de sentimentos de forma franca e aberta. Dá aquela estranha sensação de “eu teria dito isso, se soubesse dizer tão bem”. É o que acontece logo na primeira frase de Ao simulacro da imagerie. Primeira linha do livro: “O céu tão azul lá fora, e aquele mal estar aqui dentro.” Um soco na boca do estômago, eu diria, caso já tivesse tomado um. 

Pode ser ficcional, mas o que Caio F. Abreu mostra naquele conto poderia ter acontecido com qualquer um de nós. É o reencontro com o passado, com aquele ex-que-nunca-foi, e o escritor mostra toda a angústia, frustração e superação advindas de uma história mal resolvida. O horror da vida cotidiana, tão familiar, também aparece por ali: “E o suor a a náusea e a aflição de todos os supermercados do mundo nas manhãs de sábado.”

Depois vem Bem longe de Marienbad, uma novela que consegue trazer romantismo e solidão ao mesmo tempo. O personagem fala o tempo todo com ele mesmo, e é simplesmente um prazer acompanhar os pensamentos por vezes absurdos. Afinal de contas, nosso cérebro funciona da mesma maneira. 

Em seguida é a vez de London, London, que Caio Fernando Abreu escreveu durante o exílio. É a história de um típico brasileiro na terra da rainha. Logo no início, um diálogo que traz um risinho ao rosto de quem lê:

– Good morning, Mrs. Dixon! I’m the cleaner!

– What? The killer?

– Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner…

(esse “not yet” me ganhou totalmente)

Ele termina o conto com um parágrafo que me toca profundamente. E eu digo o motivo – extremamente pessoal. Eu já tive essa exata sensação por pelo menos duas vezes na minha vida:

I don’t forget. Meu coração está perdido, mas tenho um London de A a Z na mão direita e na esquerda um Collins dictionary. Babylon City estertora, afogada no lixo ocidental. But I’ve got something else. Yes, I do.

Eu também, Caio, eu também. 

Em Pela Noite encontramos a tal lagartixa, o reencontro de dois homens que se conheceram na cidade natal, desencontros. Passando por uma engraçadíssima descrição de sexo anal:

Tem a dor, a puta dor. Caralho dói pra caralho. Tem uns jeitos, uns cuspes, uns cremes. Mas é nojento pensar que o pau do outro vai sair dali cheio da sua merda. Mesmo nos casos mais dignos, você consegue imaginar Verlaine comendo Rimbaud? 

Caio Fernando Abreu nos trouxe a ideia da jamanta dourada (texto completo aqui), viveu deprê e morreu prematuramente. Por alguma razão obscura, grandes gênios tiveram esse mesmo destino. É, isso mesmo, acabei de colocar Caio Fernando Abreu na categoria de gênio. Não que a minha opinião realmente seja relevante, mas se você me leu até aqui, talvez ela seja.

Para saber mais sobre Caio Fernando Abreu:

Leia Estranhos Estrangeiros. Tipo ONTEM. Não achei pra vender em nenhuma livraria online. No Estante Virtual só tem um exemplar e está custando inacreditáveis 60 reais. Mas algum amigo seu deve ter, na biblioteca da sua faculdade também. 

Veja Por onde andou Caio F., um documentário que foi o Trabalho de Conclusão de Curso de Marina Fonseca Darmaros, Vânia Goy de Aro e Josué Barros. Está disponível na Faculdade Cásper Líbero. 

Na internet há um milhão de reproduções de textos do escritor gaúcho. Se quer ler algum livro, leia Morangos Mofados (35 reais no Submarino), que talvez seja o mais conhecido de Caio Fernando Abreu.

Só não deixe de ler. 

Nádia Lapa

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