Midcult

quinta-feira, julho 9, 2009

Ok, chega de FLIP

Antes que o assunto vire “retrospectiva 2009” e ninguém mais lembre, vou logo escrever sobre as impressões que tive das principais mesas da FLIP que presenciei. Já aviso logo que o post vai ser meio longo. Então, se você está sem saco, pare por aqui.

Li várias coisas sobre as participações de Chico Buarque e Gay Talese. Do primeiro ser o maior gênio da nossa literatura até questionamentos sobre o motivo que fez o segundo estar “fantasiado” durante a Festa Literária.

Antes, compartilho algo com quem gosta de poesia. Eu já o conhecia de nome, mas concluo agora que Eucanaã Ferraz é um grande poeta. Ele esteve no debate que expunha a atualidade da poesia de Manuel Bandeira. Quer conhecer melhor o professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)? Clique aqui.

Bom, voltando ao tema principal… O sujeito mais charmoso da FLIP tem 77 anos e é um dos mais importantes jornalistas dos Estados Unidos. Claramente, a importância do autor de Fama e Anonimato foi reconhecida durante a mesa em que o título que acabei de citar era o tema. Para quem é jornalista, estuda jornalismo ou enfiou o diploma que tem na parede no cu (perdão, precisava “falar” isso), ver e ouvir Gay Talese de perto é um grande prazer. E pra mim não foi diferente.

Perceber o quanto ele é detalhista, profissional, competente e verborrágico – este último é um “viva” às donas deste recinto virtual – foi a certeza de que estou (estamos) no caminho certo. É o que se pode chamar de uma aula de jornalismo literário, de apuração, de como se transforma um “nada” no centro de uma matéria. O homem de pais italianos, mas que desconhece o idioma daquele país. O marido que foi às últimas consequências de sua vida conjugal em nome de um livro. O jornalista que nunca quis suas reportagens nas manchetes de jornal.

Vejam só Gay Talese me ignorando... na foto que tirei com ele estou tão absurdamente medonha, que não divulgo nem pelo prêmio da Mega-Sena acumulada

Vejam só Gay Talese me ignorando... na foto que tirei com ele estou tão absurdamente medonha, que não divulgo nem pelo prêmio da Mega-Sena acumulada

Ao contrário do que o G1 publicou, Gay Talese não ficou “desconcertado” ao responder sobre a exposição da vida privada da esposa no livro A mulher do próximo. Ele foi prolixo, sim, mas respondeu com a mesma classe e tom de voz que utilizou para debater as demais questões. Disse que humilhou a mulher sem querer e se ressentiu por isso e pelo sofrimento por que passaram os filhos, à época, pequenos.

Certo ou não o que Talese fez? Cada um julgue como quiser. O que não se pode é dizer que ele tenha ficado “sem graça” na hora de responder. Shin Oliva Suzuki, jornalista da matéria do G1, deve ter assistido a outro Gay Talese, não ao que foi à Festa Literária.

"Garoto" coca-cola

"Garoto" coca-cola

Gente, isso tá mais longo que a Bíblia. Aleluia!

A mesa mais aguardada era, mesmo, a de Chico Buarque. Sim, poucos citavam Milton Hatoum como participante. Tradicionalmente, cada autor lê um trecho de sua obra no início do debate. Chico começa com seu Leite Derramado. Leitura pontual e sem expressão vocal. Ok, eufemismo para “sem emoção”. Clap,clap,clap. Lógico, a plateia aplaude.

É a vez de Milton Hatoum. Já no “Boa noite” você se pergunta: “Maluco, que voz é essa?”. Beleza, você começa a ouvir. E vai dando um negócio. Quando se dá conta, já se apaixonou. Foi assim comigo ao ouvir trechos de Órfãos do Eldorado. O áudio que captei não está bom – por motivos óbvios, não é mesmo? Com um gravador de quinta categoria e escondido não poderia ser diferente. Então, faça uma força, coloque um fone de ouvido. Se não der, use a imaginação e ouça aqui.

A verdade é que em alguns momentos os dois estiveram em sintonia. Como na brincadeira da mútua acusação de plágio – um lia a obra do outro – em casa ou em qualquer outro lugar – e dizia :“Esse cara tá me copiando”.

Não precisa dizer que sou péssima fotógrafa

Não precisa dizer que sou péssima fotógrafa

Chico atribui sua inspiração para o livro a tudo o que ele ouviu do pai – Sérgio Buarque de Holanda -, grande historiador brasileiro. “Não tenho cem, mas tenho sessenta e cinco [anos]. Com a idade, a gente vai criando mais intimidade com um passado que antigamente era remotíssimo”, argumentou o compositor.

Hatoum deixou claro que escreve a partir de suas vivências da infância e da juventude, mas fez questão de ressaltar as influências de outros autores – Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Sá Carneiro são nomes presentes na obra do romancista. “A literatura parte de uma tradição. Ela não cai do céu. Os textos são escritos a partir de uma experiência humana, que é uma experiência individual”, fez questão de explicar o escritor.

Resumindo a ópera: Estou terminando de ler o último livro do autor de Roda Viva. Nunca li nada do Hatoum. Mas o fato é que nem precisava ter feito isso para perceber que a literatura do manauense é muito superior à de Chico Buarque em seu Leite Derramado. O maior letrista da Música Popular Brasileira que me desculpe.

Cintia Santiago

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2 Comentários »

  1. Gente,

    Você admitir que Hatoum é melhor que Chico é uma das maiores surpresas ever.

    Li Cinzas do Norte agora, mas não gostei tanto quanto Dois Irmãos. Cidade Ilhada, uma coletânea de contos de Hatoum, também é muito boa. Alguns contos são absolutamente perfeitos; não tanto quanto Caio Fernando Abreu, rei dos reis. 😉

    Vou roubar Cinzas e Cidade da minha mãe pra te emprestar. Estão todos rabiscados, tenho várias ideias.

    Vou comprar Relatos ou Órfãos do Eldorado pra ler no avião. Tenho vários projetos com os livros do Hatoum.

    Beijo

    Comentário por Nádia Lapa — quinta-feira, julho 9, 2009 @ 09:02 | Responder

    • Nunca achei Chico um gênio da literatura, apesar de ter gostado de “Budapeste” e “Benjamin”. Mas, quando vêm à cabeça os trechos de Hatoum, comparar se torna covardia. 🙂

      Quase você ganha o “Órfãos do Eldorado” autografado, mas as loucas e insandecidas pelo Chico acabaram com qualquer tentativa de noite de autógrafos do seu conterrâneo. Deixei lá o livro e a paciência.

      Beijo

      Comentário por Cintia Santiago — quinta-feira, julho 9, 2009 @ 12:11 | Responder


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