Midcult

quinta-feira, junho 18, 2009

Diploma: ter ou não ter, eis a questão

Filed under: jornalismo — Nádia Lapa @ 12:29
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A pauta do dia é a queda da obrigatoriedade de diploma para jornalistas. Li em jornais e na internet diversos textos contra e a favor do diploma; nos dois lados, encontrei argumentos muito sensatos. A minha opinião, porém, era e continua sendo a da necessidade do curso superior para exercer a profissão.

Nem sempre pensei desta maneira, porém. Formada em direito (e infeliz na profissão), decidi ser jornalista. A obrigatoriedade do diploma me levou ao vestibular novamente, 11 anos depois da primeira vez. Achava aquilo tudo absolutamente desnecessário.

Hoje, terminando o terceiro semestre de jornalismo, posso dizer que ter recomeçado foi a melhor decisão que já tomei na vida. Advogados escrevem bem. Bacharéis em letras, também. Tenho amigos formados em engenharia que não cometem um único erro de ortografia.

Mas essas pessoas não têm a menor ideia do que seja lide ou pirâmide invertida. Ok, isso se aprende num curso rápido no Senac. Mas não é só isso.

Nos cinco longos anos da faculdade de direito, por exemplo, não se estuda só legislação, ao contrário do que diz o senso comum. Como em qualquer curso de humanas, antropologia, filosofia e sociologia fazem parte do currículo.  Ali, se aprende as razões pelas quais se decidiu por este ou aquele sistema prisional e os motivos pelos quais outros países adotam leis diferentes das nossas, por exemplo.

Na faculdade de jornalismo não é diferente. Você pode fazer um curso de um final de semana para aprender a fazer uma pauta. Basta uma horinha de aula pra saber construir um lide. Mas só na faculdade você vai parar para pensar na mídia globalmente, em vez de repetir conceitos de dominação-da-rede-globo-e-da-veja.  É nos bancos de sala de aula que acontecem as discussões sobre o “AI 5 digital”, tão falado ultimamente. É por estar ali dentro que você pensa criticamente o blog da Petrobras. Duvido que exista um cursinho rápido sobre teorias da recepção.

Em menos de dois anos de faculdade, com apenas seis meses de estágio, posso dizer que meu texto melhorou enormemente. Não estou falando de erros ortográficos, não, porque eu aprendi a escrever com cinco anos de idade. Não é na faculdade que aprendi que se escreve viagem, e não viajem. Não é esta a função da universidade. Aprendi a fazer um texto mais fluente; a conduzir uma entrevista; a ter boas ideias de pauta. Ainda falta um longo caminho para chegar à excelência – mais 2 anos e meio de curso, sem contar os muitos anos de carreira.

Nem vou entrar aqui na discussão sobre a ética. Sabemos que há muitos, inúmeros, incontáveis jornalistas que não estão nem aí pra isso. Assim como advogados, médicos, garis, porteiros e presidentes da República. Ética pode até ser lapidada na graduação, mas se aprende, mesmo, é na vida.

Ao comparar os jornalistas aos chefes de cozinha*, o ministro Gilmar Mendes simplificou demais o fazer jornalístico. Os demais ministros que votaram como ele, também. Jornalismo não é hobby, não é brincadeira, não mexe com a vida das pessoas só com uma indigestão.

A exigência do diploma tampouco fere a liberdade de expressão, direito pelo qual tanto se brigou (e ainda se briga, como no caso atual do Irã). Eu estou aqui, escrevendo esse texto, me expressando. Posso sair na rua agora com um cartaz pendurado no pescoço escrito “Fora, Sarney”. Ao chegar à Paulista, sou livre para me juntar aos freaks que por ali andam e fazer uma passeata a favor da proibição de acordar com o “Funk do Tigrão” na cabeça. Isso é liberdade de expressão. É dizer o que pensa, das mais variadas formas possíveis.

E, pra pensar, não é preciso diploma. Pra fazer jornalismo, sim.

Nádia Lapa

* Nada contra os chefes de cozinha. Eu mesma fiquei em dúvida entre jornalismo e gastronomia – curso que pretendo fazer algum dia. Só não acho que dá pra comparar as coisas.

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22 Comentários »

  1. Concordo em gênero, número e grau.

    Comentário por Raquel — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 12:49 | Responder

  2. Assino embaixo. E se quiser fazer gastronomia, também. Hahahaha
    Mas desde que você me use de cobaia para testar suas inveções.
    Beijos

    Comentário por marcela — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:04 | Responder

  3. Declarações simplórias como a do ministro Gilmar Mendes envergonham uma classe, uma instituição, um país. O diploma é, sim, uma prova de que o profissional se preparou para exercer a função com a ética e a dignidade necessárias.

    Comentário por Cintia Santiago — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:11 | Responder

  4. Concordo com você, Nádzia-girl!! Exigir diploma de Jornalistas não tem absolutamente NADA a ver com falta de liberdade de expressão. Acho que esse discurso é apelativo e sem consistência alguma…
    Claro que existem, sempre existem, exceções à regra. Temos vááários exemplos de pessoas muito capacitadas, com textos fluentes, cheios de estilo e muito bem construídos que não são jornalistas formados e, no entanto, atuam muuuito bem na área. MAS isso não quer dizer que pra ser jornalista não é necessário o curso superior. É como dizer que, para ser advogado basta ter poder de persuasão e saber “o que é certo e o que é errado”.

    Comentário por Tathiane — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:18 | Responder

    • Tathi, bonita, poderosa e figurante em America’s Next Top Model,

      antigamente os jornalistas eram formados na faculdade de direito. Nosso super coordenador de jornalismo, por quem tenho bastante apreço, não fez graduação em jornalismo. Ele é formado em filosofia e fez um curso de 2 anos (ou menos) pra tirar o MTB dele. Nem por isso ele deixou de chegar à editoria da Playboy. João Ubaldo Ribeiro (outro queridinho meu e da Cintia), por exemplo, fez direito. É claro que há gente muito competente no jornalismo que não fez graduação na área.

      Porém, os tempos hoje são outros. Daqui a pouco as pessoas vão dizer “mas eu quero ser criminalista!” e estudar só Direito Penal.

      E fica a dúvida: o que teria acontecido se as pessoas, que são muito boas no jornalismo, mas NÃO fizeram a faculdade, tivessem feito o curso? Elas talvez fossem ainda melhores.

      Beijo, bonita.

      Comentário por Nádia Lapa — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:32 | Responder

      • Concordo plenamente!
        O próprio Jorge Pontual, que eu considero um grande jornalista, não tem diploma, mas isso não desmerece em nada o trabalho dele.
        Esses exemplos que temos de profissionais que atuam na área sem um diploma específico de Jornalismo se constituem em pessoas que tiveram de aprender na raça certas teorias que um estudante de graduação tem a oportunidade de estudar antes a teoria, colocá-la em prática na faculdade para, a partir de então, dar a cara a bater em campo com, teoricamente, maior preparação.
        Enfim, essa discussão é eterna, hahaha… não desmereço o trabalho de ótimos profissionais da área só porque eles não tem o diploma. Ao contrário, reconheço o esforço deles, mas ainda acho que o diploma tem sim – e deve ter – relevância considerável no mercado de trabalho.

        Comentário por Tathiane — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 13:32

  5. Raquel, a gente concordar em algo é surreal, não é? 😉

    Marcela, eu farei gastronomia um dia, sim. Como em qualquer profissão, dá pra aprender na prática. Mas quem aprende a teoria E a prática vai muito melhor!!!

    Cintia, você é meu orgulho!

    Comentário por Nádia Lapa — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:18 | Responder

  6. Acho que o que eles querem com isso é diminuir o nível cultural daqueles que trabalham com jornalismo. Uma pessoa sem formação acadêmica tem muito mais tendência a escrever sobre “o novo topless de Nana Gouvêa” ou “Juliana Paes e Deborah Secco na noitada com o mesmo vestido” do que sobre os escândalos no senado ou o peso da carga tributária brasileira nos salários do contribuinte brasileiro.

    Acompanhamos a proliferação de jornais como “Meia Hora”, “Expresso” e “Vencer” com na mesma proporção em que os jornais tradicionais abrem cada vez mais espaço para pautas fúteis e diminuem seu tamanho e seu corpo de funcionários.

    Se os salários da classe já andavam ridículos, não precisa nem dizer que agora ficará ainda mais difícil receber um pagamento digno, visto que os veículos terão mão-de-obra barata farta para contratar e colocar no lugar dos caros e sindicalizados jornalistas.

    O jornalismo sério morreu. Que façam a festa os políticos, os casais do BBB e a Nana Gouvêa.

    Comentário por Leandro Ravaglia — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 13:36 | Responder

  7. Honestamente, não vejo o menor problema com a decisão do supremo. Acredito que para se pensar criticamente a profissão e entender o campo jornalístico a faculdade é importante sim. Mas nem todas as faculdades ensinam isto, inclusive já ouvi de muitos “jornalistas” que só aprenderam a não cometer erros gramaticas durante o curso. Acho que esta decisão fará fechar muitos cursos ruins em universidades medíocres, já que estes só existiam devido a obrigatoriedade do diploma.

    Enfim, sinceramente, acho que nada mudará. Apenas facilitará a vida de colunistas e comentaristas que, na minha dispensável opinião, não precisam mesmo do diploma.

    Comentário por Kauanna Navarro — quinta-feira, junho 18, 2009 @ 15:07 | Responder

    • Kauanna,

      O que tem que ser mudado no Brasil é essa proliferação de faculdades. As de jornalismo que só ensinam a não cometer erros gramaticais, as de direito que não ensinam nem qual o período de licença-maternidade, as de medicina que formam doutores carniceiros.

      Quanto aos colunistas e comentaristas, eles já podiam trabalhar mesmo sem o diploma.

      Beijo.

      Comentário por Nádia Lapa — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 16:04 | Responder

  8. Meu maior medo disso tudo é que os salários, que já não são grande coisa na área, ficarão ainda piores. Fora isso, entendo perfeitamente que o diploma criava uma reserva de mercado de araque, que a gente sabe que não existe.
    Tomara, mesmo, que só quem tem ideia do que seja apuração, edição, reportagem, e não só um bom texto, siga no mercado.

    Comentário por Expedito Paz — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 02:10 | Responder

    • Expe,

      O problema é que o mercado tende a contratar quem trabalha por menos, não é? Ainda mais com esses textos de 3 linhas da internet, onde os erros são sempre justificados pela rapidez em colocar a notícia online.

      Beijoca

      Comentário por Nádia Lapa — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 16:05 | Responder

  9. Obs: não estou nem considerando as faculdades merrecas que oferecem o curso só pelo diploma, tão menos os péssimos profissionais formados existentes no mercado.

    Comentário por Tathiane — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 13:36 | Responder

    • É isso que penso, também. O problema todo é que as pessoas estão nivelando por baixo, falando dos profissionais medíocres que existem. Como se eles só existissem no jornalismo.

      Quem nunca foi vítima de erro médico? Ou de um advogado pilantra? Nunca viram prédios ruírem?

      Gente burra e de má fé existe em toda profissão.

      Comentário por Nádia Lapa — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 16:05 | Responder

  10. Talvez a decisão do Supremo não mude muita coisa na realidade atual do jornalismo. No entanto, vale lembrar que a legitimidade de um campo profissional se baseia em três elementos (baixou o Luís Mauro aqui!): fazer específico (no jornalismo, apuração, escrita, transmissão de informações a um público grande etc.), reconhecimento público e reflexão autônoma.
    Pensando nisso, não é difícil concluir que deixamos de representar um grupo. Somos, agora, mero amontoado…

    Comentário por Luíza — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 13:56 | Responder

    • Lu, imagina a quantidade de gente que vai repetir “o que vc faz, eu também sei fazer”. Daí a gente é perseguido anos por Walter Benjamin, Orozco, professores toscos.. e no final, fazemos parte de uma massa.

      Comentário por Nádia Lapa — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 16:09 | Responder

  11. Digo e repito.. o erro já começa pelo fato de jornalismo ser um curso como outro qualquer. Não pode.. deveria ser apenas a extensão de um outro curso, mais teórico como política ou mais prático como RTV. Se bem que RTV também deveria ser um curso de extensão…

    Comentário por Lucas Mello — sexta-feira, junho 19, 2009 @ 23:22 | Responder

    • Oi, Lucas, tudo bem?

      Você já comentou por aqui?

      Qual a sua formação, aliás?

      Beijo e bem vindo.

      Comentário por Nádia Lapa — sábado, junho 20, 2009 @ 01:45 | Responder

  12. […] Arquivado em: jornalismo — Nádia Lapa @ 14:56 Tags: diploma, jornalismo, MEC Em 18 de junho eu já tinha me expressado acerca da queda da obrigatoriedade do diploma de jornalism… Hoje, três meses depois, só se traz o assunto à tona quando é para criticar algum colega que […]

    Pingback por Das coisas que não entendo « Midcult — sábado, setembro 19, 2009 @ 14:56 | Responder

  13. Simplesmente o texto que mais convém quando o assunto é diploma de jornalismo. Acabei de passar na UFPB e o que mais escutei, quando dizia que iria cursar jornalismo, eram pessoas me aconselhando a mudar de opinião, afinal meu curso não precisava de diploma. Ignorantes, as denomino. Feliz serei quando começar a estudar o que realmente gosto.
    P.S.: Adorei seu texto!

    Comentário por Bruna Becker — domingo, março 7, 2010 @ 03:49 | Responder

    • Oi, Bruna!

      Obrigada pela visita ao blog e pelo elogio! Boa sorte na faculdade – tenho certeza que você vai amar! Não há nada mais recompensador do que fazermos o que gostamos.

      Beijo e volte sempre!

      Comentário por Nádia Lapa — domingo, março 7, 2010 @ 12:43 | Responder

  14. Sobre a necessidade do diploma, temos que analisar friamente o processo de desqualificação neoliberal do ensino superior no país, além da precarização do trabalho. Concordo que existam muitas faculdades/universidades medíocres, que em nada auxiliam os graduandos, mas daí a dizer que o fim do diploma não acarreta problemas, é outra coisa.
    Colunistas e comentaristas podem como antigamente continuar escrevendo em seus periódicos, mas não posso apoiar um ponto que pouco se fala mas que é de suma importância, o descredenciamento da profissão como tal no Ministério do Trabalho. Isso é claramente, uma investida feroz de enfraquecimento dos sindicatos, bem como da categoria que ficará sujeita ao poderio dos grandes grupos de imprensa.
    É óbvio que historiadores, psicólogos, advogados, sociólogos, e outros, podem escrever em jornais e revistas, inclusive é o que mais se encontra, o que demonstra que não é bem essa a discussão que deve ser feita. Nao podemos aceitar a submissão às investidas “liberalistas” que estão cada vez mais presentes.

    Comentário por Igor L. Marchetti — sexta-feira, março 19, 2010 @ 09:50 | Responder


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