Midcult

quarta-feira, maio 13, 2009

It’s so hard to say goodbye

Filed under: Uncategorized — Nádia Lapa @ 13:26

Nota da redação: este post foge completamente à linha do blog. É extremamente pessoal, meio triste e sem sentido. Mas dá alguma explicação do meu sumiço nos últimos dias. 

Há 21 anos eu tinha uma mania de subir no vão da porta. Em 13 de maio de 1988, devo ter subido e descido umas duzentas e cinquenta milhões de vezes. Na última delas, caí. Sobre o meu próprio braço. Era feriado da abolição da escravatura e meus pais e meu avô tinham aproveitado o final de semana prolongado para irem a uma pescaria. Eu e meus irmãos ficamos sob a guarda da minha avó. Na ocasião, ela achou que nada havia acontecido comigo, e eu fiquei com o braço inchado e imóvel por uns 3 dias. Sim, ele estava quebrado.

Aquele feriado passado na casa da vovó foi só um dos incontáveis momentos que vivi ao lado dela. Tive o imenso privilégio de conviver com meus avós por toda a minha infância e parte da minha adolescência. Há 17 anos minha avó mora com a minha mãe, o que só nos aproximou ainda mais. 

É claro que nem tudo são flores: ela nasceu em Portugal, numa aldeia, há 88 anos. O conflito de gerações é inevitável – além dos óbvios desentendimentos naturais entre seres humanos. Não acho, no entanto, que seja hora pra pensar nisso.

Penso, pelo contrário, nas inúmeras vezes em que ela me deu dinheiro escondido da minha mãe, ou na coxinha de galinha que ela comprava quase todo dia quando morávamos juntas no Rio. No jeito que ela fala “parteleira”, “adevogado”, “paranótico”. Lembro de quando dormíamos na casa dela, e Dona Anaíde fugia para a varanda a fim de fumar seu cigarro Charm. Recordo-me com clareza da primeira vez que a ajudei a tomar banho, quando ela estava com pneumonia. Todo um constrangimento foi por água abaixo (literalmente) ao percebermos que éramos avó e neta com uma ligação infinitamente maior que qualquer tabu em relação àquela intimidade toda.

A minha gorda, há dez dias, sofreu um AVC. O segundo em dois anos – o primeiro, ano passado, foi isquêmico. Este último, hemorrágico. Ela ficou uma semana na UTI e agora está no quarto do hospital, com febre, com sonda para alimentar-se, tossindo e com o lado direito do corpo parcialmente paralisado.

Não há palavras pra expressar o que passei essa semana. Fiquei ao lado dela o máximo de tempo que pude. Não faltei a nenhuma visita, dormi no hospital, segurei a mão dela durante alguns procedimentos (ainda que eles fossem extremamente dolorosos pra ela e terrivelmente difíceis de assistir), dei respostas absurdas pra perguntas idem, briguei com desconhecidos. Tudo pra garantir que o sofrimento seja o menor possível.

Despedi-me dela ontem, pois precisava voltar pra São Paulo (ela mora em Manaus). Estou com uma imensa dificuldade em chorar, minha cabeça dói absurdamente e eu só tenho vontade de dormir. 

É muito difícil dizer adeus a quem se ama. É impossível manter a sanidade quando se tem que fingir, o tempo todo, que está tudo bem. Não está. Tá tudo uma merda e eu estou um caco. 

Mesmo com toda a dor, com todo o sofrimento, com as noites não dormidas, eu continuaria fazendo tudo isso – se a minha vida paulistana não me chamasse – só pra ter o prazer de vê-la respondendo “é tu, sua baleiona”, ao me ouvir dizendo “Oi, Gorda!”. Já tenho saudade do toque da mãozinha dela, me emociono ao recodar-me do “quero ver o meu boneco”, ao olhar uma foto do meu sobrinho.  

Já estou morrendo de saudade. Pra alguns, entender o amor de avó é difícil. Muitos não tiveram a sorte de viver junto aos avós. Eu tive. Então, pra mim, ela não é a Dona Anaíde. Ela é a minha gorda, a minha baleia, a minha Nana, de quem lembrarei sempre com muito carinho.

Se for chegada a sua hora, que vá em paz. Eu darei um jeito de ficar em paz por aqui também.

Nádia Lapa

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1 Comentário »

  1. Ela estará sempre com você, esteja a paranótica onde estiver.

    Comentário por Cintia Santiago — quarta-feira, maio 13, 2009 @ 15:05 | Responder


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