Eu tenho paixonites irreais. Tipo o Gael Garcia Bernal. Ou o Marco Luque. Isso sem contar com Brad Pitt e outros personagens menos óbvios.
E um deles é Antonio Prata, escritor e cronista do Estadão. Quinzenalmente ele nos delicia com um texto na última página do caderno Metrópole (nos outros domingos, a vez é de uma determinada jornalista que eu não gosto nem de dizer o nome).
Virginiano, o escritor de 31 anos é considerado um dos novos talentos da literatura brasileira. Prata é casado (buá), torce pelo Corinthians (blé) e mora em Perdizes, bairro que já decidimos (eu e minhas amigas) ser um celeiro de rapazes interessantes.
Seu livro de estreia foi Douglas e outras histórias, de 2001. Não gostei. Esses sete anos que se passaram só fizeram melhorar – e muito – a narrativa do autor.
Amo os textos de Antonio Prata. Além do livro mencionado, eu fuçava o blog dele, também. Até que eu estava tranquila no congresso de jornalismo cultural no Itaú e ele fez parte de uma palestra sobre crônicas.

Aí pronto. Fodeu. Mesmo com a língua meio presa, os óculos e a barriguinha… Ele estava com blusa listrada, né? Não resisto a homens de camisa listrada.
Só não saí me rasgando toda porque ali estava também Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Cosac Naify. E ele me deixa petrified.

(juro que Cassiano é muito mais lindo que isso)
O texto mais famoso de Antonio Prata é Bar ruim é lindo, bicho! (mais conhecido como “meio intelectual, meio de esquerda”), mas ele me conquistou, mesmo, foi com o Pensamento Único, que reproduzo abaixo:
Pensamento Único, por Antonio Prata
A calabresa está com os dias contados. É a próxima vítima na cruzada puritana que assola o Globo. Quando a última bituca for apagada no fundo do derradeiro copo de chope, pode anotar: eles virão atrás da lingüiça.
A caçada, na verdade, já começou. Ontem à noite, num bar, uma garota em minha mesa resolveu desafiar o espírito do tempo e pedir ao garçom, sob olhares atônitos dos outros comensais, um sanduíche de calabresa. O resto da turma a olhou, incrédulo. Diante de suflês de abobrinha, saladas verdes e outros corolários anódinos do auto-controle, pareciam dizer, cheios de orgulho e inveja: você não sabe que não se pede mais esse tipo de coisa?!
Por enquanto, a repressão é apenas cultural, mas é assim que começa. Em breve os carnívoros começarão a ser hostilizados em restaurantes. Depois, quem sabe, serão obrigados a usar estrelas vermelhas costuradas à roupa. Daí para os cercarem em guetos e você-sabe-bem-como-essa-história-termina é apenas um passo.
A moda agora é das comidas funcionais. Suco de berinjela, salada de alfafa, meia uva com três grãos de gergelim… Tudo pelo bom funcionamento do sistema digestivo, como se fôssemos meras máquinas a serem reguladas. Daqui a pouco o garçom vai perguntar, enquanto toma nosso pedido: “quer que dê uma olhada no óleo e na água?”.
Podem dizer que é para o nosso próprio bem. Que a gordura mata e o agrião salva. Amém. Acredito, no entanto, que a opção preferencial pelas fibras nada tem a ver com a saúde do corpo mas, sim, com uma doença da alma: o sabor está ficando démodé. Há uma espécie de ascetismo religioso nessa austeridade dietética. Um júbilo penitente pelo auto-controle. Segundo o novo moralismo alimentar, os gordos são preguiçosos, os carnívoros são lascivos e quem pede uma calabresa, de noite, na frente dos outros, só pode estar completamente fora de sintonia com a própria época.
A questão é séria e requer uma atitude. Glutões de todo o mundo, discípulos de Baco, cultores do bom, do belo e do supérfluo, uni-vos: o prazer subiu no telhado. Ponham as carnes na grelha, aumentem o som, abram um vinho, reajam! Antes que seja tarde e o mundo se transforme numa barra de cereal. Light.
O jeito de Antonio Prata falar do cotidiano é algo que me atrai. Gosto de quem consegue pegar algo simples e transformar, tornando interessante. É isso que ele faz.
Ele já escreveu para a Capricho e tem vários livros publicados (hello! ele tem 31 anos!). Vá ler JÁ o blog dele no Estadão. Tenho certeza que você vai gostar.
Nádia Lapa